Marcos Decliê

Não me siga que eu também estou perdido


Não me siga que eu também estou perdido


Era um sábado à tarde. Eu estava num bairro estranho, com um endereço anotado num pedaço de papel, dirigindo meu carro e ao mesmo tempo cuidando as placas de sinalização. Parecia uma barata tonta, não encontrava a rua que queria. Nisso o sinal fechou e eu parei atrás de um caminhão, em cujo pára-choque estava escrito: "Não me siga que eu também estou perdido".

Comecei a rir da coincidência, tive vontade de descer e ir até a boléia abraçar meu companheiro de infortúnio. Somos dois, meu irmão. Aliás, somos mais do que dois. Somos muitos. Somos todos.


Para que lado eu dobro se quiser sair deste engarrafamento de emoções, se quiser ter um relacionamento único e estável, um amor que me resgate dos arranques e das freadas súbitas deste meu coração mal-regulado? Às vezes dá vontade de encostar o carro e fazer este tipo de pergunta para o casalzinho apaixonado que está aos beijos na parada de ônibus.


Devo seguir em frente, sempre pelo mesmo caminho? Tenho vontade de entrar numas ruas sem saída, descobrir o que elas escondem, mas e se eu me atrasar, e se eu me perder, e se ninguém der pela minha falta?

Subo a ladeira ou viro à esquerda? No topo da ladeira tem uma surpresa; no caminho à esquerda tem paixões e tudo o que elas acarretam de bom e de torturante na alma da gente, e aqui onde estou tenho segurança, mas estou estacionado, e estacionado eu não ando, eu não corro, eu não vivo, o que é que eu faço, que direção eu pego?
Você aí, saindo da padaria, pode me dizer pra que lado fica a juventude eterna?
Garoto, chega aí, você já ouviu falar em paz de espírito? Eu tô perto ou tô longe?
Pé no acelerador e sorte, caríssimos. Não sigam ninguém, que estão todos à procura também.

Martha Medeiros, escritora e jornalista gaúcha

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