Marcos Decliê

A palavra coragem é muito interresante

 A palavra coragem é muito interessante. Ela vem da raiz latina cor, que significa "coração". Portanto, ser corajoso significa viver com o coração. E os fracos, somente os fracos, vivem com a cabeça; receosos, eles criam em torno deles uma segurança baseada na lógica. Com medo, fecham todas as janelas e portas – com teologia, conceitos, palavras, teorias – e do lado de dentro dessas portas e janelas, eles se escondem. O caminho do coração é o caminho da coragem. É viver na insegurança, é viver no amor e confiar, é enfrentar o desconhecido. É deixar o passado para trás e deixar o futuro ser. Coragem é seguir trilhas perigosas. A vida é perigosa. E só os covardes podem evitar o perigo – mas aí já estão mortos. A pessoa que está viva, realmente viva, sempre enfrentará o desconhecido. O perigo está presente, mas ela assumirá o risco. O coração está sempre pronto para enfrentar riscos; o coração é um jogador. A cabeça é um homem de negócios. Ela sempre calcula – ela é astuta. O coração nunca calcula nada.         Osho

Resultado da oficina de cinema Pensar Filmes - Morro do Chapéu, Bahia

CANTE LÁ QUE EU CANTO CÁ



Poeta, cantô da rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisa
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá.
Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisa do sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma boa paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhece bem,
Pois nesta penosa vida,
Só quem provou da comida
Sabe o gosto que ela tem.
Pra gente cantá o sertão,
Precisa nele mora,
Te armoço de fejão
E a janta de mucunzá,
Vive pobre, sem dinhêro,
Trabaiando o dia intero,
Socado dentro do mato,
De apragata currelepe,
Pisando inriba do estrepe,
Brocando a unha-de-gato.
Você é munto ditoso,
Sabe lê, sabe escreve,
Pois vá cantando o seu gozo,
Que eu canto meu padece.
Inquanto a felicidade
Você canta na cidade,
Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a misera.
Pra sê poeta divera,
Precisa tê sofrimento.
Sua rima, inda que seja
Bordada de prata e de oro,
Para a gente sertaneja
É perdido este tesôro.
Com o seu verso bem feito,
Não canta o sertão dereito
Porque você não conhece
Nossa vida aperreada.
E a dô só é bem cantada,
Cantada por quem padece.

Só canta o sertão dereito,
Com tudo quanto ele tem,
Quem sempre correu estreito,
Sem proteção de ninguém,
Coberto de precisão
Suportando a privação
Com paciença de Jó,
Puxando o cabo da inxada,
Na quebrada e na chapada,
Moiadinho de suó.
Amigo, não tenha quêxa,
Veja que eu tenho razão
Em lhe dize que não mexa
Nas coisa do meu sertão.
Pois, se não sabe o colega
De quá manêra se pega
Num ferro pra trabaiá,
Por favô, não mexa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá que eu canto cá.
Repare que a minha vida
É deferente da sua.
A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente,
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obra da criação.
Mas porém, eu não invejo
O grande tesôro seu,
Os livro do seu colejo,
Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poeta
E fazê rima compreta,
Não precisa professô;
Basta vê no mês de maio,
Um poema em cada gaio
E um verso em cada fulô
Seu verso é uma mistura
É um ta sarapaté,
Que quem tem pôca leitura,
Lê, mais não sabe o que é.
Tem tanta coisa incantada,
Tanta deusa, tanta fada,
Tanto mistéro e condão
E ôtros negoço impossive.
Eu canto as coisa visive
Do meu querido sertão.
Canto as fulô e os abróio
Com toda coisas daqui:
Pra toda parte que eu óio
Vejo um verso se buli.
Se as vez andando no vale
Atrás de cura meus males
Quero repará pra serra,
Assim que eu óio pra cima,
Vejo um diluve de rima
Caindo inriba da terra.

Mas tudo é rima rastêra
De fruita de jatobá,
De fôia de gamelêra
E fulô de trapiá,
De canto de passarinho
E da poêra do caminho,
Quando a ventania vem,
Pois você já tá ciente:
Nossa vida é deferente
E nosso verso também.
Repare que deferença
Iziste na vida nossa:
Inquanto eu tô na sentença,
Trabaiando em minha roça
Você lá no seu descanso,
Fuma o seu cigarro manso,
Bem perfumado e sadio;
Já eu, aqui tive a sorte
De fumá cigarro forte
Feito de paia de mio.
Você, vaidoso e facêro,
Toda vez que qué fumá,
Tira do bôrso um isquêro
Do mais bonito meta.
Eu que não posso com isso,
Puxo por meu artifiço
Arranjado por aqui,
Feito de chifre de gado,
Cheio de argodão queimado,
Boa pedra e bom fuzí.
Sua vida é divertida
E a minha é grande pena.
Só numa parte de vida
Nóis dois samo bem iguá
É no dereito sagrado,
Por Jesus abençoado
Pra consolá nosso pranto,
Conheço e não me confundo
Da coisa mio do mundo
Nóis goza do mesmo tanto.
Eu não posso lhe inveja
Nem você invejá eu
O que Deus lhe deu por lá,
Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié,
Me estima com munta fé,
Me abraça, beja e qué bem
E ninguém pode negá
Que das coisa naturá
Tem ela o que a sua tem.
Aqui findo esta verdade.
Toda cheia de razão:
Fique na sua cidade
Que eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um ispeio,
Já lhe dei grande conseio
Que você deve toma.
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá que eu canto cá.

(De Cante lá que eu canto Cá - Filosofia de um trovador nordestino - Ed.Vozes, Petrópolis, 1982)
Patativa do Assaré

Encerrando Ciclos



Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos - não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.

Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação?
Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país?
A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?

Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu. Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou sua esposa, seus amigos, seus filhos, sua irmã, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.

As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora. Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem. Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração - e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.

Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.

Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do “momento ideal”. Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará.

Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.

Gloria Hurtado

O que é religião?

Religião é um sentimento oceânico, onde você fica perdido e somente a existência permanece. É uma morte e uma ressurreição. Você morre como é, e ressuscita totalmente novo. Algo absolutamente novo surge da morte, do antigo. No túmulo do antigo algo brota e se toma uma nova flor.

A religião é uma revolução interior, uma mutação interna. Ela não está nos templos, nas mesquitas ou nas igrejas. Não procure a religião aí! Se procurar aí, perderá seu tempo. Procure a religião dentro de você. E quanto mais fundo você caminhar, mais profundamente encontrará o ego presente — o qual é a barreira. Abandone essa barreira e, subitamente, você fica religioso.

Só existe uma coisa que não é religiosa, e essa coisa é o ego. E esse nunca pode ser religioso. E as seitas jamais o eliminam; pelo contrário, elas o reforçam.

Através de rituais, templos e ideologias, o ego é reforçado. Você vai à igreja e sente que se tornou religioso. Um orgulho sutil surge dentro de você. Você não se toma humilde, pelo contrário, fica mais egotista.

Você pratica um certo ritual e se sente gratificado — e começa a condenar aqueles que não praticam o ritual. Você pensa que eles são pecadores e que serão atirados ao fogo do inferno; e seu céu está garantido — apenas por praticar certos rituais? A quem você pensa que está enganando?

Alguém se senta durante uma hora repassando seu rosário e pensa que seu céu está assegurado e que os outros que não estão fazendo essa coisa estúpida irão para o inferno. E você vai à mesquita, ajoelha, curva-se e diz coisas tolas ao Divino: “Sois o maior" — e há alguma dúvida sobre isso? Por que está dizendo: “Sou pecador e sois a compaixão”? O que você está fazendo? Subornando? Você pensa que Deus é uma coisa parecida com um ego? — de maneira que você possa dizer quem você é: “Sois grande e nós somos pequenos, sois a compaixão e nós somos pecadores. Perdoai-nos!”. A quem você pensa que está enganando?

O ego está fazendo o jogo. Você pensa que Deus também é um ego que pode ser subornado? Deus não é uma pessoa, absolutamente; assim, você está falando para si mesmo. Não há ninguém ouvindo; somente as paredes, as paredes mortas da mesquita ou do templo, ou mesmo uma estátua de pedra. Ninguém está ouvindo.

Na verdade, você está fazendo algo maluco. Vá a um hospício e veja as pessoas falando com alguém que não existe. Mesmo essa gente louca não é tão louca, porque aquele alguém pode estar em algum lugar. Pode não estar ali; um louco pode estar falando com a esposa que não está ali no hospício, mas talvez noutro lugar — mas seu Deus não está em lugar algum. Sua loucura é mais profunda, maior, e perigosa.

Como você pode falar com a existência? Com a existência você precisa ficar em silêncio; toda fala deveria cessar. Você não deveria dizer coisa alguma; ao contrário, a oração é um escutar. Você precisa escutar a existência, e não dizer algo. Se falar, a quem escutará? Se você falar e estiver muito envolvido nas palavras, então a quem escutará? E a cada momento há uma mensagem.

A cada momento, de todas as partes, há uma mensagem para você. Ela está escrita em tudo; toda a existência é a escritura do Divino. E a mensagem está em todas as partes, a assinatura está em cada folha, mas quem a verá? Seus olhos e sua mente estão repletos de você mesmo. Você tem lixo, mas continua virando esse lixo na mente. Abandone-o!

Isto é algo a se compreender, porque a oração pode ser cristã, hindu, judia, mas então são orações sectárias e não são orações, de forma alguma. Uma verdadeira oração não pode ser cristã, hindu ou budista. A verdadeira oração é apenas um silêncio, uma espera. Como você pode dizer que o silêncio é hindu? Como pode dizer que o silêncio é cristão? Será que o silêncio pode ser cristão ou hindu?

O silêncio é simplesmente o silêncio! — nem hindu nem muçulmano. Quando duas pessoas estão completamente em silêncio, será que você pode dizer quem é muçulmano? No silêncio, as seitas, as sociedades e as civilizações desaparecem; no silêncio, você desaparece. Só o silêncio existe — e você não está presente. Se estiver, então o silêncio não poderá existir, porque então você fará uma coisa ou outra, pensará uma coisa ou outra, continuará tagarelando por dentro.

Quando você não está, a sociedade e as seitas também não estão; nenhuma palavra, nenhuma oração; você não está recitando o Alcorão nem os Vedas, não está fazendo Meditação Transcendental, “Ram, Ram, Ram” — tudo bobagem. Quando você está simplesmente em silêncio, acontece um encontro, uma fusão — você se dissolve! Assim como o gelo derrete e os limites se dissolvem e então você não pode descobrir para onde o gelo se foi... tomou-se um com o mar.

O sol nasce, o gelo derrete, toma-se água. O silêncio nasce, a mente, congelada como gelo, começa a derreter; o ego se dissolve. Subitamente existe só o oceano, e você não é mais. Esse é o momento da religião. Ela nasce em você.



Osho, em "Antes que Você Morra"

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