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Marcos Decliê
É possível tentar mudar o mundo para salvá-lo, sem ser
agressivo?
Isso já é agressivo. Até mesmo o esforço de mudar um único
indivíduo é agressivo. Quem é você para decidir o que está certo para
determinada pessoa? Quem é você para decidir que o mundo, se for mudado segundo
as suas ideias, será um lugar melhor? Você está assumindo o papel de um
salvador, e essa é uma maneira inconsciente de dominar as pessoas. É para o bem
delas próprias, é claro, para que não se rebelem contra você.
Todos os pais fazem isso com os filhos. "Pelo próprio
bem deles" eles os disciplinam, obrigando-os a fazer coisas que eles não
querem fazer, impondo-lhes alguma religião sem o consentimento deles. De todas
as maneiras possíveis, a liberdade deles está sendo cerceada. Quanto menos
liberdade, menos individualidade... E, no momento em que o filho se tornou cem
por cento obediente, ele morreu! A vida do filho estava em sua desobediência;
em sua rebeldia estava o seu ser.
E não se pode dizer que as intenções dos pais são erradas.
Eu nunca desconfio das intenções de ninguém, mas essa não é a questão. A
questão é: qual é o resultado daquilo? A intenção é algo que está dentro de
você - você pode ter todas as boas ou as más intenções - mas as mantenha para
si mesmo. No momento em que começa a agir em função delas, as boas intenções
tornam-se bem mais perigosas do que as más intenções. Uma má intenção pode ser
imediatamente retaliada, condenada, não somente pela pessoa sobre a qual você a
está impondo, mas até por aquelas que a estão testemunhando. Mas uma boa
intenção é perigosa.
Ambas estão fazendo o mesmo trabalho: destruindo a liberdade
do indivíduo de ser ele mesmo, de forma que a natureza dele de modo algum seja
diferente daquilo que você quer. A rebelião é possível contra a má intenção e
será apoiada por todos; mas contra as boas intenções a rebelião torna-se
impossível. Todos apoiarão a pessoa com boas intenções que está destruindo o
indivíduo. Ninguém virá para apoiar o indivíduo.
Não é função nossa salvar o mundo. Em primeiro lugar, nós
nunca o criamos. Não é responsabilidade nossa para onde ele vai e o que vai
acontecer com ele. Nossa única responsabilidade é que, enquanto estivermos
aqui, vivamos uma vida de alegria, de amor, de felicidade. Enquanto estivermos
aqui, a nossa responsabilidade é saber quem somos e em que consiste esta vida.
E o milagre é que, ao fazer isso, você já está mudando o
mundo sem ser agressivo. Não há em você nenhuma ideia de mudar o mundo e,
assim, a questão da agressão não surge. Você não tem sequer uma vaga concepção
de mudar o mundo e torná-lo como você acha que ele deveria ser. Você está
simplesmente vivendo a sua vida, da qual você é dono. Você está tentando
vivê-la da maneira mais intensa e total possível, porque a vida é muito curta e
o momento seguinte é tão incerto que temos de encarar cada momento como se
fosse o último.
Apenas a própria ideia - como se este fosse o último momento
- vai transformá-lo. Então, não há necessidade de ter inveja, não há
necessidade de sentir raiva. No último momento da vida, quem quer estar com
raiva e com inveja, sentir-se triste e infeliz? No último momento da vida,
naturalmente todos os ressentimentos e todas as queixas sobre a vida
desaparecem. Se cada momento for encarado como o último - como ele deve ser
encarado, porque o próximo é incerto - você estará mudando a si mesmo; e a sua
mudança será contagiante. Ela pode mudar o mundo todo, embora nunca tenha
pretendido isso.
Essa é a minha maneira de mudar o mundo sem ser agressivo.
Até agora todos os reformadores, revolucionários, messias, foram violentos, agressivos.
Eles estavam visando a salvá-lo. Nunca lhe perguntaram se você quer ou não ser
salvo; você era apenas alguma coisa sobre a qual eles tinham de decidir. Quem
lhes deu autoridade para isso? Eles nem sequer pediram sua permissão. E, se
você não mudar segundo a maneira de eles verem as coisas, estão dispostos a
atirá-lo para sempre em um inferno escuro, sombrio.
E, é claro, se você estiver disposto - disposto a cometer um
suicídio espiritual e simplesmente se tornar uma sombra dessas pessoas -, elas
estão lhe oferecendo todas as recompensas que você pode imaginar no Paraíso. Os
hindus tentaram mudar o mundo, os cristãos tentaram mudar o mundo - todas as
religiões têm tentado fazer isso. O comunismo, o socialismo, o fascismo, todos
fizeram isso.
As pessoas que estão comigo têm de ser totalmente
diferentes, têm de ser um novo fenômeno no mundo. Não vão interferir na vida de
ninguém e, no entanto, vão transformar o mundo todo. Isso é mágica de verdade.
Você não tem a intenção, não impõe, não interfere, não invade ninguém. Você não
faz nenhum julgamento: "Você está errado e eu vou endireitá-lo". Você
não está preocupado com isso; isso é problema dele, é a vida dele. Se alguém
quiser destruí-la, tem o direito de destruí-la. Se alguém quer viver
estupidamente, tem o total direito de fazer isso. É a vida dele. Como ele a
vivencia, como ele a vive ou se ele permanece quase morto, adormecido do berço
até o túmulo, essa continua sendo a vida dele e ele é dono dela. Por isso,
aqueles que estão comigo não têm de interferir na vida de ninguém.
Eu tenho uma abordagem totalmente diferente para mudar o
mundo: cada um mude apenas a si mesmo. E quando estiver rejubilando e dançando,
vai ver que alguém ao seu lado começou a dançar com você, porque todos nós
somos a mesma consciência humana com o mesmo potencial. Ninguém é estrangeiro.
Podemos falar idiomas diferentes, mas entendemos uma
linguagem. Então, quando você está feliz, sorrindo, o outro que pode não estar
sorrindo de repente sente um sorriso surgir no rosto. Você pode ser um
estranho, mas você sorriu para a pessoa, acenou para ela. Você mudou a pessoa
sem que ela soubesse e sem que você tivesse essa intenção.
Grandes mestres - como Lao Tsé, Chuang Tsé, Lieh Tsé -
chamaram isso de "ação sem ação". Você não está realizando nenhuma
ação, mas algo está acontecendo. E quando as coisas acontecem por si mesmas,
elas têm uma beleza, porque no fundo delas está a liberdade. Se a pessoa
acenou, se a pessoa sorriu, você não está lhe pedindo que faça isso; ela é
totalmente livre para não olhar para você. Mas há uma sincronicidade entre os
corações.
Conhecendo esse segredo da sincronicidade, estou propondo um
tipo de revolução totalmente novo. Mude a si mesmo, e nessa própria mudança
você mudou uma parte do mundo. Você é uma parte do mundo. Se a sua mudança é
algo que o torna rico, o torna alegre, o torna feliz, o torna uma canção, então
é difícil aos outros resistir a cantar com você, dançar com você, florescer com
você. Um único indivíduo pode transformar o mundo todo sem nem sequer mencionar
a palavra "transformação".
Iniciei a jornada sozinho. Não bati na porta de ninguém
chamando para virem comigo, mas, curiosamente, as pessoas começaram a vir e a
caravana começou a se tornar cada vez maior. Elas vieram por si mesmas. Se vieram
estar comigo, isso foi decisão delas; se quiserem ir embora, não há problema.
Elas são tão livres como sempre.
Já iniciamos o processo da entrada do mundo em uma nova fase
da história humana. Não somos agressivos; não estamos tentando mudar o mundo.
Não estamos sequer interessados no mundo; estamos simplesmente vivendo a vida,
desfrutando a vida - somos totalmente egoístas! Ainda assim, o que não
aconteceu em milhares de anos é possível por meio de nós. Mas será uma ação sem
ação, uma.transformação que não foi intencional, que não foi imposta.
Por:Osho
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